"A intenção do teatro verbatim é sempre chegar à verdade."

Outubro 11, 2018

O que é teatro verbatim?

O teatro verbatim é uma técnica de teatro documentário que reproduz em cena as palavras exatas de pessoas reais sobre um determinado tema ou evento. Durante a apresentação, os atores reproduzem instantaneamente os áudios que estão ouvindo em fones de ouvido da maneira mais fiel possível, respeitando os diferentes sotaques e formas de falar e atingindo um grau de autenticidade que se aproxime da natureza de cada entrevistado. Embora o teatro documental não seja um fenômeno recente, a tendência de apresentar o teatro verbatim surgiu com força no teatro britânico contemporâneo ao longo da última década e muito do seu apelo reside no imediatismo do estilo, já que oferece uma plataforma instigante para falar de questões contemporâneas e permite tratar em pouco tempo de assuntos bem atuais.

A técnica surgiu na Inglaterra no final dos anos 70 e, embora uma peça de teatro verbatim usa exclusivamente depoimentos reais em sua dramaturgia, sem que nada extra seja escrito ou apresentado, muitos dramaturgos britânicos têm frequentemente combinado depoimentos reais com cenas escritas ou usado discursos e entrevistas em vez de usar somente depoimentos gravados em suas montagens. No Reino Unido, o termo 'teatro verbatim' refere-se especificamente ao uso de depoimentos falados, considerando-se 'teatro documentário' quando utiliza outras fontes, tais como artigos de jornais, diários e cartas.

"Apesar de tudo!" de Erwin Piscator (Berlin, 1925) é amplamente reconhecido como o primeiro documentário no palco. A peça era uma revista política sobre o Partido Comunista que levava à cena discursos gravados, notícias de jornal, fotografias e projeção de filmes da Primeira Guerra Mundial. A partir daí, Piscator passou a dirigir algumas das mais respeitadas peças de teatro documentário da Alemanha. "Apesar de tudo!" teve uma grande influência sobre o teatro documentário britânico. Outra peça da época, "Ah, que guerra adorável!", de Joan Littlewood, fazia uma crônica da Primeira Guerra Mundial através de canções e documentos da época e sua importância foi reconhecida imediatamente, com a peça sendo aclamada pelo jornal inglês The Observer como 'O evento teatral mais importante da década'.

O surgimento do teatro documentário, assim como o uso das novas tecnologias de projeção usadas por Piscator, está intimamente ligada a um único desenvolvimento tecnológico: a invenção do gravador de fita cassete portátil (o mais conhecido deles sendo o gravador Nagra). Isso permitiu que as vozes dos indivíduos pudessem ser gravadas em seu próprio ambiente, ampliando definitivamente as possibilidades do teatro documentário e possibilitando o surgimento do teatro verbatim. As primeiras produções de verbatim foram dirigidas por Peter Cheeseman, que foi diretor do Teatro Victoria de 1962 a 1984. Cheeseman não só foi influenciado pelo documentário de esquerda de Joan Littlewood, mas também pela tradição documental do rádio, especialmente os programas de rádio de Charles Parker, que dava destaque às vozes da classe trabalhadora nas transmissões. Uma das maiores produções ​​de Cheeseman, que pode ser considerada a primeira peça de teatro verbatim, foi "Lutando por Shelton Bar" (1974), que era parte de uma campanha contra o fechamento de uma das principais siderúrgicas no coração de Stoke City e foi encenada para um público de ex-trabalhadores da própria siderúrgica.

Ao longo das últimas três décadas, o teatro verbatim tem ocupado um lugar central no cenário britânico e é visto como uma das formas mais potentes de teatro político. Saiu das margens direto para o mainstream, com alguns dos maiores teatros encenando peças de verbatim frequentemente. Expoentes notáveis incluem David Hare, cujas peças de verbatim "A via permanente" (2003), "Coisas acontecem" (2004) e "O poder do sim" (2009) foram todos encenadas no National Theatre; além do diretor Max Stafford-Clark e do dramaturgo Robin Soans, que trabalharam juntos em "Um caso de Estado" (2000) e "Conversando com Terroristas" (2005), que fizeram temporada no Tricycle Theatre, no norte de Londres.

No Brasil, a primeira peça de teatro verbatim foi "Ao pé do ouvido", com dramaturgia de Herbert Bianchi, Rita Batata e Zé Henrique de Paula, que também dirigiu o espetáculo. A segunda montagem foi "Do outro lado da rua", com dramaturgia e direção de Herbert Bianchi. A peça que tornou a técnica mais conhecida no Brasil foi "Hotel Mariana", da Cia da Palavra, que levou ao palco depoimentos reais dos sobreviventes da tragédia de Mariana. A peça teve dramaturgia de Munir Pedrosa e Herbert Bianchi, que também dirigiu o espetáculo, estreou em 2017, foi indicada ao Prêmio Shell e foi vista por mais de 10.000 pessoas em dois anos.

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