"A intenção do teatro verbatim é sempre chegar à verdade."

Janeiro 11, 2018

História do teatro verbatim

O teatro verbatim é um tipo de teatro documental construído a partir das palavras exatas faladas por pessoas reais. A técnica surgiu na Inglaterra no final dos anos 70. Uma peça de teatro verbatim usa exclusivamente depoimentos reais em sua dramaturgia, sem que nada extra seja escrito ou apresentado. No entanto, muitos dramaturgos britânicos têm frequentemente combinado depoimentos reais com cenas escritas ou usado discursos e entrevistas em vez de usar somente depoimentos gravados. Existem por lá também subgêneros do teatro verbatim, como o "verbatim de tribunal" (em que a dramaturgia é tecida a partir dos áudios ou transcrições de testemunhos dados nas cortes do país). No Reino Unido, o termo 'verbatim' refere-se especificamente ao uso do depoimento falado, considerando-se 'documentário' quando utiliza outras fontes, tais como artigos de jornais, diários e cartas.

"Apesar de tudo!" de Erwin Piscator (Berlin, 1925) é amplamente reconhecido como o primeiro documentário no palco. A peça era uma revista política sobre o Partido Comunista que trazia à cena discursos gravados, notícias de jornal, fotografias e projeção de filmes da Primeira Guerra Mundial. A partir daí, Piscator passou a dirigir algumas das mais respeitadas peças de teatro documentário da Alemanha. Produção que teve uma grande influência sobre o teatro documentário britânico, sobretudo o trabalho de Joan Littlewood. Sua peça "Ah, que guerra adorável!" fazia uma crônica da Primeira Guerra Mundial através de canções e documentos da época. Sua importância foi reconhecida imediatamente, com a peça sendo aclamada pelo jornal inglês The Observer como 'O evento teatral mais importante da década'.

O desenvolvimento do teatro verbatim, assim como o uso das novas tecnologias de projeção usadas por Piscator, está intimamente ligada a um único desenvolvimento tecnológico: a invenção do gravador de fita cassete portátil. Isso permitiu que as vozes dos indivíduos pudessem ser gravadas em seu próprio ambiente, ampliando definitivamente as possibilidades do teatro verbatim. As primeiras produções de verbatim foram dirigidas por Peter Cheeseman, que foi diretor do Teatro Victoria de 1962 a 1984. Cheeseman não só foi influenciado pelo documentário de esquerda de Joan Littlewood, mas também pela tradição documental do rádio, especialmente os programas de rádio de Charles Parker, que dava destaque às vozes da classe trabalhadora nas transmissões. Uma das maiores produções ​​de Cheeseman, que pode ser considerada a primeira peça de teatro verbatim, foi "Lutando por Shelton Bar" (1974), que era parte de uma campanha contra o fechamento de uma das principais siderúrgicas no coração de Stoke City e foi encenada para um público de ex-trabalhadores da própria siderúrgica.

Ao longo das últimas três décadas, o teatro verbatim tem ocupado um lugar central no cenário britânico e é visto como uma das formas mais potentes de teatro político. Saiu das margens direto para o mainstream, com alguns dos maiores teatros encenando peças de verbatim frequentemente. Expoentes notáveis incluem David Hare, cujas peças de verbatim "A via permanente" (2003), "Coisas acontecem" (2004) e "O poder do sim" (2009) foram todos encenadas no National Theatre; e o diretor Max Stafford-Clark e o dramaturgo Robin Soans, que trabalharam juntos em "Um caso de Estado" (2000) e "Conversando com Terroristas" (2005), que viram suas peças estrear no Tricycle Theatre, no norte de Londres.

No Brasil, a primeira peça inteiramente de verbatim foi "Ao pé do ouvido" (2015), dirigida por Zé Henrique de Paula e com a dramaturgia assinada por ele, Herbert Bianchi e Rita Batata, no Sesc Pinheiros. Em seguida, estreou em São Paulo, "Do outro lado da rua", sobre o mundo da prostituição, com direção e dramaturgia de Herbert Bianchi. Em 2017, estreou na Estação Satyros "Hotel Mariana", idealizada e produzida por Munir Pedrosa, com direção de Herbert Bianchi, e dramaturgia de ambos. A peça, que trazia depoimentos dos sobreviventes da tragédia de Mariana (MG), foi vista por mais de 5.000 pessoas, teve boa recepção de crítica e foi indicada ao Prêmio Shell de Teatro.

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